sábado, 28 de setembro de 2013

Double Dutch Braid



Você sabe como se faz uma trança? É muito mais simples do que muita gente imagina. E eu sempre fui apaixonada por elas. Porque? Porque parecem complicadas. Parecem impossíveis. Mas não são. São simples, bonitas, delicadas. Com um ar de retrô. Com um ar de sinceridade mórbida, sabe? E com um ar de antigo, mais antigo que a humanidade.

Eu gostava de ter duas. Uma de cada lado. Meus pais abominavam. Coisa de interior, diziam. De bicho do mato. Orgulho. Preconceito. Não entendia porque não podia usar. E daí se as pessoas achavam isso? O que isso tinha a ver comigo?

às vezes eu as fazia. Não sei bem o porque. Acho que era mais por desafiá-los. Ainda hoje as faço. E gosto. Gosto de sentir seus nós. Gosto de fazer, desfazer, fazer e desfazer novamente. Parecem tão difíceis. Mas não levam mais que alguns minutos. Como se a vida pudesse ser uma trança.

Imagine. Uma trança que representasse, em cada parte, algo importante. Uma parte, sua família. A outra, vida amorosa. A terceira, bem, que tal seu trabalho?

Em uma trança, não parece haver separação. Se você tiver prática, todas as partes sairão iguais e a sua trança será perfeita. Será leve, delicada e intrincada. Se você estiver inspirada, pode inventar coisas com tranças. Pode fazê-las ao redor de sua cabeça. Pode fazê-las longas. Pode fazê-las e colocá-las em um coque. Eu gosto das minhas duplas.

Duplas. Porque duplas?, pergunto ao meu psicólogo interior (ele existe, procure aí dentro). Porque eu também sou dupla. Alguma hora falarei de meu outro eu. Hoje, vou me ater às tranças.

Sou dupla. Dupla porque ainda consigo deitar e ficar horas imaginando minha outra vida. Uma vida da outra Eu. Mas a trança ainda é dupla. São duplas, algumas vezes enroladas em coques. Mas sempre duplas.

Alguns dizem que pareço uma menina quando as uso. Gosto disso. Gosto de saber que não perdi o gosto pela simplicidade. Que ainda tenho algo que perdemos tão rápido. Tem horas que me sinto tão velha!! As tranças me mostram este lado.

Ah, mãe, porque não? Porque tenho que crescer? Porque tenho que prender meus cachos? Porque não posso ir assim?

Quantas das vezes quis perguntar, mas então queria falar de tudo o que eu passava. Não podia. Ela não suportaria, em seu amor de mãe. Ou quando meu pai falava que meu cabelo era ruim - acredite, ele ainda falava menos que minha mãe. Eu queria gritar, chorar.

Aqui não, gritava algo em mim. Não aqui, já basta na escola!!

Houve um tempo em que parei de fazer minhas tranças duplas. Parei de parecer uma criança. Minhas roupas se tornaram sérias. Preto. Marrom. Branco. Sapatos de bico. Cabelo bem preso. Alisava, porque meus cabelos eram feios do jeito natural.

E as tranças ficaram para trás. Foram se desfazendo, coitadas.

Quando fazia, eram uma apenas. Uma única, longa e fina trança simples. Já não eram incrementadas. Já não tinham mais delicadeza. Já não eram mais simples porém mágicas. Elas já não conseguiam me fazer sentir bem. Nem mesmo menina.

Por anos, fiquei sem minhas tranças. Ao ver um par delas, queria usar, mas meu cérebro ainda estava na escola, e eu pensava "posso lidar com os olhares, as reprovações?" Tinha medo do bullying. Esquecia que agora eu era, e não sentia.

As tranças voltaram depois de anos. Quase oito, na verdade. A última vez, tinha uma foto. Tinha, pois esta ficou perdida. Engraçado, nunca gostei de fotos. Hoje quero comprar uma câmera. Quero construir lembranças. Mas as do meu passado eu não quero lembrar mais. São como as tranças. Sempre estiveram comigo. Só não lembrava delas.

Tenho raiva do sistema. O que me impede de usar o cabelo de uma forma X????? Porque tenho que ser como o protótipo?

Lógico, ainda o amo, mas se quero usá-lo como tranças duplas, que mal há? Isso define a minha personalidade de alguma forma? Hoje não estou com minhas tranças. Hoje quis liberdade de forma. De expressão.

Mas, amanhã, elas estarão lá. Duplas. Perfeitas. Bonitas, brilhantes. E duplas. Com ares de menina peralta. Com jeito de garota, mas com a delicadeza dos adultos mal-crescidos. Construírão ou acabarão com minha imagem? Não sei. Mas me sinto bem. E tudo o que me faz sair da escuridão é me sentir bem.

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