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terça-feira, 8 de outubro de 2013
O Bullying e eu
Acho que o tópico mais difícil de eu discutir sobre é bullying. O bullying sempre foi parte da minha vida. Em casa, infelizmente, meus pais faziam um bullying inconsciente, ao falarem sempre que eu tinha "cabelo ruim que devia ficar preso", ou que eu "era muito gorda e parecia um muleque".
Não consigo entender o porque disto tudo, mas mesmo assim, acho que eles pensavam que era para o meu bem (?). Talvez, construíssem meu caráter (?). Não sei dizer bem o porque. Não é fácil crescer com duas irmãs totalmente opostas de você, não só fisicamente, mas mentalmente também. Não é fácil não ser amiga de seus pais.
Ainda hoje, muitas coisas não tenho coragem de compartilhar com eles. Ainda penso que vamos brigar toda vez que toco em um assunto. Especialmente refente à minha educação ou profissão. Meus pais não aceitam até hoje que sou professora. Triste.
Na época do colégio, eu era a estranha. Muito criança para andar com um grupo, muito adulta pra andar com outros. Fui bem até a quinta série. É quando as crianças começam a ficar competitivas, e os adultos ainda levam na brincadeira. E eu era muito inocente. Fui criada somente com meus primos. Alguns finais de semana ficava com meus primos na casa de tia, eu e mais três meninos, nos outros íamos pra casa de outra tia ou das vós. Não lembro muito bem de tudo.
Não tenho fotos da minha infância. Minhas irmãs tem álbuns de fotos. Tenho talvez meia dúzia, garimpadas das vós. Acho que era muito... feia, talvez. Estranha, talvez. Okay, não sei bem porque. Minhas irmãs são lindas. Ambas com rosto de bebê, não precisam de intervenções de pinça nas sobrancelhas (tenho monocelha), nem make up pra melhorar as espinhas. Minhas irmãs sequer tiveram espinhas. Não tiveram problemas hormonais. Não sofreram bullying. Talvez eu tenha nascido errado, só isso.
Quando estava na quinta série, mudei de escola. Entrei em uma escola que simplesmente não me entendia. Meus amiguinhos já não iam pra mesma escola que eu, ou tinham novos amigos. Fiz amizade com três meninas, a Ana, a Chayenne e a Amanda. Lembro bem delas. Aí, já estava indo pra sexta série. Foi quando meu pai me mudou de escola de novo, porque ele pagava transporte escolar e preferiu pagar a escola da minha irmã mais nova.
Nunca consegui ser a mesma. Nesta nova escola, minha sala era considerada a melhor da escola. E as pessoas dentro dela se achavam assim. Alguns se salvavam. Havia um, que vou chamar de S. Adorooooo esse menino até hoje. E tinha o F, que queria namorar comigo. Ele mostrou pra mim que eu não era assim como os outros falavam.
Buscando por aceitação, queria andar com os populares. Andava com eles, mas nunca fiz parte deles. E sou uma pessoa que gosta de ter pessoas à sua volta. É, eu sei que isso talvez não seja tão legal. Mas eu gosto. Gosto de ser útil. E eu com o S achamos algo em comum: o desenho. Mas não vou falar disto agora. Vou deixar pra outro post.
Por hoje, vou me focar no meu problema de adolescente. Com treze, quatorze anos, eu tinha o corpo de uma adulta. Eu era enorme, roliça, mas não gorda, pois minha mãe controlava muito bem nossa comida! Não estava overweight, ia no médico com frequência e posso provar. Ficava apenas alguns dois ou três quilos acima da minha média. Normal, diziam os médicos. Não pra mim. Ser gorda não era bonito. Nas fotos de adolescente, ainda sou a menina de sombrancelhas muito grandes, cabelos rebeldes e descuidados, e parecendo enorme ao lado da minha família.
Não sei se minha mãe notou isso alguma vez na vida dela, mas eu tenho poucas fotos, mesmo nos aniversários das minhas irmãs. Ou mesmo nos meus. Acho que sou a pessoa que tem menos fotos do mundo. Sempre tem minhas irmãs, minhas primas, alguns primos, enfim. Acho que nunca fui uma pessoa que valesse a pena fotografar.
Ah, e como eu gostava de chamar a atenção dos outros. Comecei a desenhar. Comecei a trabalhar com 14 anos, bordando pra fora. Com dezesseis, tinha uma rendinha. Não era muito. Tirava aí uns duzentos reais por mês. Comecei a investir no meu cabelo. Pobrezinho, sofreu muito na minha mão.
Me lembro de um episódio que me marcou pro resto da minha vida: Começaram a atiçar uma menina contra mim. Ela era de outra sala. Meus próprios "amigos" fizeram isso. Lembro bem de ouvi-los conversando sobre isso, como se eu não estivesse lá. Infelizmente pra eles, eu estava. Para minha surpresa, uma menina que nunca ví na vida ficou do meu lado.
Ela começou a ficar por perto. Não chegamos aos finalmentes, eu e esta menina que aceitava as mentiras dos meus "amigos". Não sei se isso foi bom ou não. Só sei que então dei um basta naquelas amizades falsas. Passei muito tempo sozinha. Tinha medo de sair da sala. Tinha medo da hora do intervalo (porque recreio é coisa de criança). Já não queria ir pra escola.
Éramos eu, meus livros e meus desenhos. Com os desenhos, eu não precisava prestar atenção no tempo. Com os livros, eu tinha amigos. Harry, Rony, Mione, foram meus amigos por quase onze anos da minha vida. Depois, Jane Austen. Mas os que me deixavam mais feliz de ler eram os da Agatha Christie. Ainda tenho arrepios ao pensar em Hercule Poirot.
Mas, este já está muito longo. Amanhã, ou depois, ou quando sentir a necessidade, continuo aqui.
sábado, 28 de setembro de 2013
Double Dutch Braid
Você sabe como se faz uma trança? É muito mais simples do que muita gente imagina. E eu sempre fui apaixonada por elas. Porque? Porque parecem complicadas. Parecem impossíveis. Mas não são. São simples, bonitas, delicadas. Com um ar de retrô. Com um ar de sinceridade mórbida, sabe? E com um ar de antigo, mais antigo que a humanidade.
Eu gostava de ter duas. Uma de cada lado. Meus pais abominavam. Coisa de interior, diziam. De bicho do mato. Orgulho. Preconceito. Não entendia porque não podia usar. E daí se as pessoas achavam isso? O que isso tinha a ver comigo?
às vezes eu as fazia. Não sei bem o porque. Acho que era mais por desafiá-los. Ainda hoje as faço. E gosto. Gosto de sentir seus nós. Gosto de fazer, desfazer, fazer e desfazer novamente. Parecem tão difíceis. Mas não levam mais que alguns minutos. Como se a vida pudesse ser uma trança.
Imagine. Uma trança que representasse, em cada parte, algo importante. Uma parte, sua família. A outra, vida amorosa. A terceira, bem, que tal seu trabalho?
Em uma trança, não parece haver separação. Se você tiver prática, todas as partes sairão iguais e a sua trança será perfeita. Será leve, delicada e intrincada. Se você estiver inspirada, pode inventar coisas com tranças. Pode fazê-las ao redor de sua cabeça. Pode fazê-las longas. Pode fazê-las e colocá-las em um coque. Eu gosto das minhas duplas.
Duplas. Porque duplas?, pergunto ao meu psicólogo interior (ele existe, procure aí dentro). Porque eu também sou dupla. Alguma hora falarei de meu outro eu. Hoje, vou me ater às tranças.
Sou dupla. Dupla porque ainda consigo deitar e ficar horas imaginando minha outra vida. Uma vida da outra Eu. Mas a trança ainda é dupla. São duplas, algumas vezes enroladas em coques. Mas sempre duplas.
Alguns dizem que pareço uma menina quando as uso. Gosto disso. Gosto de saber que não perdi o gosto pela simplicidade. Que ainda tenho algo que perdemos tão rápido. Tem horas que me sinto tão velha!! As tranças me mostram este lado.
Ah, mãe, porque não? Porque tenho que crescer? Porque tenho que prender meus cachos? Porque não posso ir assim?
Quantas das vezes quis perguntar, mas então queria falar de tudo o que eu passava. Não podia. Ela não suportaria, em seu amor de mãe. Ou quando meu pai falava que meu cabelo era ruim - acredite, ele ainda falava menos que minha mãe. Eu queria gritar, chorar.
Aqui não, gritava algo em mim. Não aqui, já basta na escola!!
Houve um tempo em que parei de fazer minhas tranças duplas. Parei de parecer uma criança. Minhas roupas se tornaram sérias. Preto. Marrom. Branco. Sapatos de bico. Cabelo bem preso. Alisava, porque meus cabelos eram feios do jeito natural.
E as tranças ficaram para trás. Foram se desfazendo, coitadas.
Quando fazia, eram uma apenas. Uma única, longa e fina trança simples. Já não eram incrementadas. Já não tinham mais delicadeza. Já não eram mais simples porém mágicas. Elas já não conseguiam me fazer sentir bem. Nem mesmo menina.
Por anos, fiquei sem minhas tranças. Ao ver um par delas, queria usar, mas meu cérebro ainda estava na escola, e eu pensava "posso lidar com os olhares, as reprovações?" Tinha medo do bullying. Esquecia que agora eu era, e não sentia.
As tranças voltaram depois de anos. Quase oito, na verdade. A última vez, tinha uma foto. Tinha, pois esta ficou perdida. Engraçado, nunca gostei de fotos. Hoje quero comprar uma câmera. Quero construir lembranças. Mas as do meu passado eu não quero lembrar mais. São como as tranças. Sempre estiveram comigo. Só não lembrava delas.
Tenho raiva do sistema. O que me impede de usar o cabelo de uma forma X????? Porque tenho que ser como o protótipo?
Lógico, ainda o amo, mas se quero usá-lo como tranças duplas, que mal há? Isso define a minha personalidade de alguma forma? Hoje não estou com minhas tranças. Hoje quis liberdade de forma. De expressão.
Mas, amanhã, elas estarão lá. Duplas. Perfeitas. Bonitas, brilhantes. E duplas. Com ares de menina peralta. Com jeito de garota, mas com a delicadeza dos adultos mal-crescidos. Construírão ou acabarão com minha imagem? Não sei. Mas me sinto bem. E tudo o que me faz sair da escuridão é me sentir bem.
o dia em que me perdi
Olá, meu nome é Kamy. E eu estou aqui pra desabafar. Não estou aqui pra brincar. Não estou aqui pra te dar dicas. Nem pra te aconselhar. Estou aqui pra contar como eu me perdi. E como me achei... ou pelo menos acho. Todos precisamos de um amigo, é o que dizem. Eu não tenho um. Conheci pessoas que escreviam em Diários para poder ter um amigo. Eu não tenho nenhum. E nunca podemos falar tanto e tão bem quanto na internet. Parece que sabermos que todos podem nos ver nos dá uma segurança melhor do que sabermos que ninguém irá enxergar... crazy thing about life!
Eu me perdi quando o sabor da liberdade não me atingiu quando eu era uma adolescente, mas sim quando eu virei uma jovem adulta. Quando as responsabilidades começaram a se tornar maiores do que eu podia imaginar. Comecei a me tornar rebelde por dentro. Desprezar minhas raízes. Inventar uma nova vida pra mim.
Comecei a ter vergonha de quem eu era. De quem eu estava sendo. Não sei bem porque. Não fazia mais sentido eu ser. Tudo era chato, minha vida era muito... comum, talvez.A verdade é que eu quis mudar. Mudar tudo. Nunca abri mão de minha personalidade, que sempre foi muito forte. Mas também não consigo mudar. Não sei bem porque. Talvez apenas seja demais pra mim.
Conheci um rapaz na escola. Foi o único que me interessou. Porque? Não sei bem. Talvez porque ele não gostava de mim, e isso me instigou a conquistá-lo. Talvez tenham sido os olhos pretos dele. Poços escuros que brilhavam ao me ver. Talvez possa ter sido um pouco mais. Talvez tenha sido o jeito de criança. Maleável. Ele me fazia sentir bem. Fazia com que eu tivesse uma liberdade que nunca sonhei pra mim. Será que gostei? Ou será que não gostei, mas quis experimentar mesmo assim?
Esse rapaz era meu seguro. Aquele amigo que nunca pude ter. Ele me fazia sentir amada, adorada, bonita. Coisas que eu não sentia em casa. Tinha uma irmã super-inteligente e uma irmã que... bem... não sei dizer. Meus pais pareciam não compreender o que eu queria da vida. Ou talvez eu não soubesse dizer o que eu queria. Vivíamos em atrito. Como me desgastei!
Para deixá-los contentes, comecei a mentir. Mentia que estudava. Mentia que gostava de ser uma nerd. Mentia que ia fazer aula de administração quando na verdade cabulava as aulas no pátio de fora da escola. Mentia que era uma santa. Deus sabe que eu não era. E isso me corrói por dentro. Porque tudo o que eu não era era o que eles viam. Ou talvez enxergassem, não sei.
Um dia, quis voar. Tinha eu dezessete anos. Queria ser uma coisa, meus pais queriam outra coisa pra mim. Eles não queriam me perder de vista. Não sei o que eu teria feito se eles tivessem perdido. Quantas das vezes deixei a água do chuveiro escorrer por meus cabelos, levando embora meus pensamentos de fugir, de me esconder.
Quantas lágrimas derramei. Não podia mais ouvir os dois discutirem comigo sobre meu futuro.
Meu problema é que decidi o que queria ser enquanto ainda estava na pré-escola. Queria ser professora. Queria ser uma pessoa que abria horizontes como as minhas abriam. Queria pegar na mão pequena de uma criança e ensiná-la a escrever. Queria ouvir um "eu te amo" da boca de uma outra. Queria sentir seus abraços de saudade. Acho que queria atenção.
Um antigo amigo falou pra mim que todo professor já foi - ou ainda é - um solitário. Eu fui solitária na minha casa. Cresci como o patinho feio. Não tenho muitas fotos da minha infância. Devo ter uma meia dúzia delas, talvez. Minha irmãs tem mais. E elas sempre foram as bonitas da casa. As que eu tenho mostram uma menina de cabelos eriçados, que mamãe teimava em tentar prender e eles teimavam em ficar livres (primeira parte de mim a reclamar liberdade!), sombrancelhas grandes demais e sorriso aberto.
Sorriso. Esta sempre foi a melhor parte de mim. Mesmo quando sofria bullying na escola - que na minha época era a coisa mais comum que havia. Mesmo quando fui ameaçada - quantas vezes - por terem construído armadilhas para mim. Mesmo quando tentava me enquadrar nos grupinhos e não conseguia entrar em nenhum deles de fato.
Sou uma pessoa que precisa de platéia. Não, quero dizer, de pessoas. Eu tenho a necessidade de ser útil. Não atrás de um computador. Mas sentindo que me aceitam de todo. Fui repudiada por tempo demais na minha vida pra não precisar disso.
Meus pais são muito conservadores. Não me lembro de abraça-los. Não me lembro de ter dito "te amo" pra eles. Nem ter ouvido. Acho que só beijei meu pai no rosto em seus aniversários. Nunca tive este tipo de criação. Não, meus pais me criaram para ser independente. O problema é que eles nunca aceitaram de fato que eu o fosse.
Meu pai... como definir meu pai? A melhor palavra que cruza meus pensamentos é: chefe. Ele é o chefe da trupe. O exemplo. E eu o amo por isso. Ele conseguiu colocar em mim um espírito de conquista, de querer ser mais. Nunca aceitei que meu pai fosse mais que eu. Estranho, vocês, caros leitores pensarão.
Na verdade, não é estranho. É só quem eu sou. Eu sou meu pai. Não consigo viver para os outros. Não consigo esperar os outros. Não consigo esperar as coisas acontecerem. Eu quero mais. Eu quero a perfeição. Eu quero ser perfeita. Sempre tive isso comigo. Onde não consigo ser perfeita, eu simplesmente saio. Não tento mais. Porque ser perfeita de pouco não me adianta. Tenho que ser perfeita de todo.
Talvez um dia vou aprender a ser como minha mãe. Mansa. A voz da sabedoria. Embora não lembro de receber seus abraços nem beijos. Nem sei se eles existiram. Apenas não fazem parte das minhas memórias. Acho que isso me fez mais forte, não sei. Só sei que sempre, sempre, eu quis ficar longe dela. Longe deles. Desde pequena. Minhas irmãs choravam pelo seu colo, por estarem ao seu lado. Eu não recordo fazendo isso muitas vezes. Uma ou outra apenas.
Eu sempre queria estar longe. Longe de casa. Longe deles onde quer que fosse. Queria respirar. Não queria fazer o que eles me mandavam.
Fui educada de forma provinciana. Respeito. Contenção. Religião. Obediência. Estas são as normas em casa. E ainda bem que fui criada por elas. Não sei bem onde estaria se elas não estivessem sobre mim.
Mas, ao mesmo tempo, nem isso foi capaz de me impedir da escuridão. E esta escuridão chegou muito cedo pra mim. Chegou quando tive a primeira noção de liberdade. Antes disso, eu já vivia debaixo de nuvens chuvosas com pouco sol. Mas ela só chegou de fato depois. Eu tinha dezessete anos.
Eu me perdi quando o sabor da liberdade não me atingiu quando eu era uma adolescente, mas sim quando eu virei uma jovem adulta. Quando as responsabilidades começaram a se tornar maiores do que eu podia imaginar. Comecei a me tornar rebelde por dentro. Desprezar minhas raízes. Inventar uma nova vida pra mim.
Comecei a ter vergonha de quem eu era. De quem eu estava sendo. Não sei bem porque. Não fazia mais sentido eu ser. Tudo era chato, minha vida era muito... comum, talvez.A verdade é que eu quis mudar. Mudar tudo. Nunca abri mão de minha personalidade, que sempre foi muito forte. Mas também não consigo mudar. Não sei bem porque. Talvez apenas seja demais pra mim.
Conheci um rapaz na escola. Foi o único que me interessou. Porque? Não sei bem. Talvez porque ele não gostava de mim, e isso me instigou a conquistá-lo. Talvez tenham sido os olhos pretos dele. Poços escuros que brilhavam ao me ver. Talvez possa ter sido um pouco mais. Talvez tenha sido o jeito de criança. Maleável. Ele me fazia sentir bem. Fazia com que eu tivesse uma liberdade que nunca sonhei pra mim. Será que gostei? Ou será que não gostei, mas quis experimentar mesmo assim?
Esse rapaz era meu seguro. Aquele amigo que nunca pude ter. Ele me fazia sentir amada, adorada, bonita. Coisas que eu não sentia em casa. Tinha uma irmã super-inteligente e uma irmã que... bem... não sei dizer. Meus pais pareciam não compreender o que eu queria da vida. Ou talvez eu não soubesse dizer o que eu queria. Vivíamos em atrito. Como me desgastei!
Para deixá-los contentes, comecei a mentir. Mentia que estudava. Mentia que gostava de ser uma nerd. Mentia que ia fazer aula de administração quando na verdade cabulava as aulas no pátio de fora da escola. Mentia que era uma santa. Deus sabe que eu não era. E isso me corrói por dentro. Porque tudo o que eu não era era o que eles viam. Ou talvez enxergassem, não sei.
Um dia, quis voar. Tinha eu dezessete anos. Queria ser uma coisa, meus pais queriam outra coisa pra mim. Eles não queriam me perder de vista. Não sei o que eu teria feito se eles tivessem perdido. Quantas das vezes deixei a água do chuveiro escorrer por meus cabelos, levando embora meus pensamentos de fugir, de me esconder.
Quantas lágrimas derramei. Não podia mais ouvir os dois discutirem comigo sobre meu futuro.
Meu problema é que decidi o que queria ser enquanto ainda estava na pré-escola. Queria ser professora. Queria ser uma pessoa que abria horizontes como as minhas abriam. Queria pegar na mão pequena de uma criança e ensiná-la a escrever. Queria ouvir um "eu te amo" da boca de uma outra. Queria sentir seus abraços de saudade. Acho que queria atenção.
Um antigo amigo falou pra mim que todo professor já foi - ou ainda é - um solitário. Eu fui solitária na minha casa. Cresci como o patinho feio. Não tenho muitas fotos da minha infância. Devo ter uma meia dúzia delas, talvez. Minha irmãs tem mais. E elas sempre foram as bonitas da casa. As que eu tenho mostram uma menina de cabelos eriçados, que mamãe teimava em tentar prender e eles teimavam em ficar livres (primeira parte de mim a reclamar liberdade!), sombrancelhas grandes demais e sorriso aberto.
Sorriso. Esta sempre foi a melhor parte de mim. Mesmo quando sofria bullying na escola - que na minha época era a coisa mais comum que havia. Mesmo quando fui ameaçada - quantas vezes - por terem construído armadilhas para mim. Mesmo quando tentava me enquadrar nos grupinhos e não conseguia entrar em nenhum deles de fato.
Sou uma pessoa que precisa de platéia. Não, quero dizer, de pessoas. Eu tenho a necessidade de ser útil. Não atrás de um computador. Mas sentindo que me aceitam de todo. Fui repudiada por tempo demais na minha vida pra não precisar disso.
Meus pais são muito conservadores. Não me lembro de abraça-los. Não me lembro de ter dito "te amo" pra eles. Nem ter ouvido. Acho que só beijei meu pai no rosto em seus aniversários. Nunca tive este tipo de criação. Não, meus pais me criaram para ser independente. O problema é que eles nunca aceitaram de fato que eu o fosse.
Meu pai... como definir meu pai? A melhor palavra que cruza meus pensamentos é: chefe. Ele é o chefe da trupe. O exemplo. E eu o amo por isso. Ele conseguiu colocar em mim um espírito de conquista, de querer ser mais. Nunca aceitei que meu pai fosse mais que eu. Estranho, vocês, caros leitores pensarão.
Na verdade, não é estranho. É só quem eu sou. Eu sou meu pai. Não consigo viver para os outros. Não consigo esperar os outros. Não consigo esperar as coisas acontecerem. Eu quero mais. Eu quero a perfeição. Eu quero ser perfeita. Sempre tive isso comigo. Onde não consigo ser perfeita, eu simplesmente saio. Não tento mais. Porque ser perfeita de pouco não me adianta. Tenho que ser perfeita de todo.
Talvez um dia vou aprender a ser como minha mãe. Mansa. A voz da sabedoria. Embora não lembro de receber seus abraços nem beijos. Nem sei se eles existiram. Apenas não fazem parte das minhas memórias. Acho que isso me fez mais forte, não sei. Só sei que sempre, sempre, eu quis ficar longe dela. Longe deles. Desde pequena. Minhas irmãs choravam pelo seu colo, por estarem ao seu lado. Eu não recordo fazendo isso muitas vezes. Uma ou outra apenas.
Eu sempre queria estar longe. Longe de casa. Longe deles onde quer que fosse. Queria respirar. Não queria fazer o que eles me mandavam.
Fui educada de forma provinciana. Respeito. Contenção. Religião. Obediência. Estas são as normas em casa. E ainda bem que fui criada por elas. Não sei bem onde estaria se elas não estivessem sobre mim.
Mas, ao mesmo tempo, nem isso foi capaz de me impedir da escuridão. E esta escuridão chegou muito cedo pra mim. Chegou quando tive a primeira noção de liberdade. Antes disso, eu já vivia debaixo de nuvens chuvosas com pouco sol. Mas ela só chegou de fato depois. Eu tinha dezessete anos.
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